terça-feira, 17 de setembro de 2013

Martírio nosso de cada dia


     Nos dias atuais, especialmente na sociedade dita pacifista em que vivemos, falar do martírio parece tratar de algum tema ligado a tempos longínquos, inalcançáveis, antigos demais para vir à baila, já que na banda ocidental do mundo não se presenciam perseguições sistemáticas, ou melhor expressas, contra a fé católica. Mas cabe a nós, enquanto fiéis à Sã Doutrina, por em xeque os tempos hodiernos e questionar o quanto de dor essa aparente paz encerra em si, dores de um tipo diferenciado de martírio, o chamado "martírio branco". 

   Desde os tempos primitivos do cristianismo, as populações cristã foram perseguidas, torturadas e mortas. Nos primeiros séculos da nossa era, servir cristãos às feras, ou passa-lhes ao gume da espada foram práticas bastante comuns. Destes tempos conhecemos histórias de imitadores de Cristo - a exemplo de Pedro, Estevão, Inês e tantos outros - que foram capazes de completar em sua carne o sofrimento de Cristo (cf. Cl 1,24), prestando o testemunho do sangue confiantes de que ao morrer com Ele encontraram a vida eterna (Cf. 2Tm 2,10). De fato a palavra martírio encontra, em sua origem no grego, o sentido de testemunho numa dimensão muito maior do que utilizamos atualmente. Sofrer o martírio é testemunhar com a própria vida. A este tipo de testemunho, em lembrança à cor do sangue derramado, se chamou de "martírio vermelho". Como elucida o Beato João Paulo II, em sua Carta Apostólica Tertio Millennio Adveniente (n. 37): 
"A Igreja do primeiro milênio nasceu do sangue dos mártires: « sanguis martyrum — semen christianorum », (sangue de mártires, semente de cristãos) [...] No final do segundo milênio, a Igreja tornou-se novamente Igreja de mártires. As perseguições contra os crentes — sacerdotes, religiosos e leigos — realizaram uma grande sementeira de mártires em várias partes do mundo". 
    Os suplícios que levaram os fiéis à morte, em verdade, nunca cessaram. Haja vista as recentes mortes de cristãos em confrontos no oriente próximo (especialmente Egito e Síria) que são notíciadas quase diariamente. Contudo, o que passa despercebido é aquele sofrimento que não derrama o sangue, que não mancha as mãos dos carrascos, mas que ferem as almas dos inocentes. Este tipo "incruento" de sofrer - que alguns denominam de "martírio branco"- presenciamos diariamente, cotidianamente. É aquele testemunho que advém do homem que abandona tudo que ama em obediência a Deus e que por isso é perseguido ou torturado. Em primeiro contato pode fazer acreditar que este ato é desprovido de qualquer grau de sofrimento, afinal pode parecer, por uma questão de lógica, que aquele que ama a Deus acima de todas as coisas seja capaz de tamanho desprendimento alegremente. Sim, o é, mas a questão ultrapassa essas fronteiras: é preciso entender no contexto atual a proporção de coragem exigida. 

   Aparentemente soa  muito simples deixar todas as coisa, dada uma visão romântica que ainda compartilhamos acerca da religião. No entanto não refletimos sobre as forças seculares que visam sufocar a missão de anunciadores da palavra. Começa pela difusão de ideologias que destituem do papel do clero, do religioso, do leigo a sua matriz ética e moral, trazendo-os para um agigantamento do processo de "mundanização". Passa pela transformação contemporânea de valores, onde o homem se encontra mais barroco do que nunca ao não saber como lidar com a crise gerada pela ruptura dos conteúdos axiológicos tradicionais; Caminha na própria derrocada do sentimento humanístico, na desvalorização do ser humano, de Deus, do telúrico, do metafísico, equiparando-os a objetos de positivismos  "quase esquizofrênicos" e anacrônicos - ainda não superados; e culmina na enorme egolatria hoje tão disseminada. Desta maneira, se perpetra, cada vez mais o "martírio branco" ao retirar do homem a possibilidade de cumprir a sua vocação primária à santidade. Assim sofremos esta angustia nossa de cada dia ao tentar aproximar-se de Deus, de Jesus, de sua mensagem, e descobrirmos que estamos presos, cada dia mais, a uma humanidade destruída e em decadência submersa em um caos líquido, sem saber que cada um de nós temos sido algozes deste flagelo ao calar a voz, ao fechar os olhos e o coração à própria dor e à dor do próximo, ao sermos desumanos conosco e com os outros.

    Enfim, Cristo nunca disse que seria fácil. Aliás, quem toma sua cruz e O segue sabe na carne e na alma das tribulações anunciadas em Matheus, capítulo 10. É preciso, antes de mais nada, enquanto verdadeiros discípulos, sermos capazes de confessar a fé e assumir esta cruz. Retirar a trave em nossos olhos, para que configurado a Ele, possamos ser alter christus, ou seja: outros Cristos que entregam a si mesmos a uma vida guiada pela misericórdia de Deus, por amor a Ele e ao próximo, dando testemunho com nossas vidas na total confiança de alcançar, no Reino vindouro, a felicidade eterna. 


Wendel Machado



Salvador, 16 de setembro de 2013. Festa dos mártires São Cornélio, Papa, e São Cipriano, Bispo. 


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P.S: Historicamente a Igreja concede o título de "Confessor" àqueles santos e beatos que sofreram perseguição e tortura pela , mas não ao ponto do martírio de sangue.

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